sábado, 30 de abril de 2011

Oferenda

Ao propor teu tesouro por um segundo de minha luz
Estás trocando seis por meia duzia
porque na minha procura pela porta
Foste minha passagem secreta
E protegeste a vida de minha alma.
Se saí do limiar do fim do mundo
se criei meu próprio ritual de absolvição
se já não me sinto um feijão preto num balde de ervilhas
É porque respondi à necessidade de coerência
com uma dança criativa e atemorizante ao redor de um saco de sementes.
Fizeste para sempre
em mim
muito mais do que sobreviver
Me deste fidelidade. Serei sempre encontrada dentro dos meus olhos.
Lá estarei em árvores, em águas, em palavras, em cor, em barro, em dança.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Viagem

Estou no meio do rio
poderia nadar a mesma distância em qualquer direção.
Uma flor vermelha irrompe na superfície da água imitando uma vitória régia
renova meu fôlego e minhas verdades.

A travessia chega ao seu ponto crítico.
Em vez de ir adiante é preciso ir abaixo, dentro.
A força da correnteza faz ventania na minha consciência
e o sol forte deixa diáfana a água.

A força da correnteza abre a porta   do entre mundos
Entro
Enfim
o que estava oculto pode ser compreendido emocionalmente.
Ah! Mar.. deste paisagem demais ao teu predador natural.

Naveguei bem na travessia da realidade para o entre mundos.
Aqui
no rio abaixo do rio
a correnteza tem seu próprio ritmo
Estamos sós.

sábado, 23 de abril de 2011

Recolhendo ossos

Aos quarenta
não dá mais pra contemplar o próprio rabo.
Até hoje escondi meus instintos num intelecto devorador.

Agora medito, canto, danço e escrevo poemas.
Descobri meu acesso ao mundo entre mundos.
Percebo essências e seres de névoa.

Estou no deserto.
Meu fôlego e minhas verdades constroem o lar da minha alma.

O rio debaixo do rio é  minha âncora. Todos os meus sonhos me espreitam na superfície.

Preciso permitir a morte para viver à ceu aberto.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Desabotoamente

Desabotoar a arma-dura é um ato de bondade com a alma do mundo
Então desata-me os laços do cativeiro
E ata-me à esta tua língua-raíz que trazes na ponta dos dedos
Prometo-te o imenso ritmo da dança nua.


Estou tornando-me cativa de minha própria mente.

sábado, 2 de abril de 2011

Cativeiro

Se estás comigo ou em mim, tanto faz
Sem o cativeiro não existimos.

Agora não salto mais, não estouro cativeiros sem idéia do que encontrar pela frente.
Tornou-se um merguho profundo
até o macio interno de mim.
Lá onde tudo é compreensível.

Até ontem fui uma mulher de combates e armaduras
Hoje tudo me sugere alegria, amor e delicadeza.
Meu presente é: desabotoar as vestes  da armadura
nadar rio adentro
No reverso
No minimo sete senhoras esperam para habitar-me
E escravizar-me.