quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

PAI-CHÃO

O chão de areia embaixo d'água muda de profundidade
conforme a força e o ritmo da água
que desliza por sobre ele.

A criança que moldava bonequinhos de argila
em minha meninice
Minha meninice... perdi o pai.
Perdi a menina. Perdia menina.
A menina se perdeu.

Fui então buscá-la lá
no fundo do leito do rio onde a água ainda corre.

Ela nunca esteve só: com-pai-xão.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

TORPOR

Na vida, o destino do guerreiro
o coloca sujeito a ser despedaçado
pelo oponente.

Vive aquele que,
durante o combate
sustenta os olhos cravados na disputa.

Vive aquele que,
exibindo gestos descontrolados de
paixão e determinação,
sacode e faz tremer o tambor
do peito.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Na ilha, filha. Na canoa, amor.

Precisei, busquei, sofri, encontrei.
O rio e minha canoa. Os acontecimentos, e Deus.
Chegar... a gente sempre chega.
Desembarquei em minha ilha desconhecida.
E chegar gostando é o grande presente do destino.
O sopro morno do vento faz balancê
Na minha canoa-jardim.
Colo de Ceres, morada de Perséfone.
Ao longe e ao longo de toda margem, meus olhos avistam terras cultivadas.
Meus sentidos já principiam colheita.

sábado, 20 de agosto de 2011

Habitando o entre mundos

No reino das emoções,
morada do ego e do desejo,
uma tropa de cavalos ameaça
Disparada.
No reino dos sentimentos,
morada do coração e da vontade,
uma legião de guerreiros ilumina
Guarda.

A inspiração é insuflação divina, entusiasmo poético, iluminação.
A Intuição é percepção clara da verdade sem a intervenção do raciocínio, pressentimento.
Encontrei uma passagem secreta.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Caraivana do vento

Acordava
com o rumor do vento e das ondas
Levantava-me de meus sonhos fabulosos
porque lá fora me esperava o alvorecer.

Os babadinhos da camisola cor de violeta
tremiam assombrados
enquanto os olhos intumescidos
percorriam o mar
numa caravana do tempo.

O que esse mar quer de mim? Minha solidão voluntária mantem dele distância segura.
Não há uma mão para segurar-me.

Minha viagem foi então uma carta enigmática.

Tanto vento dia e noite
me soprando a voz do mar: o velho tempo terminou.

Senti-me divina na incerteza do destino.

Agora entendo porque adoro cata-ventos.
Eles indicam qual tempo domina
e mostram a direção da energia para o trabalho.

E o rio? Lembro-me do meu "reverso"
- o que antes era superficie chegou ao profundo
E uma nova forma de vida chega à superfície.

O que sou? o rio.
que compreende que so para amar
é que se vive.
Doa-se.
Faz uma enchente de lágrimas
para oferecê-las ao mar. Senhor!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Ser - Tão!

Atravessei o confronto entre o ego e o inconsciente.
Não o falso ego, aquele superior, mas o ego verdadeiro: o ser humano.
O self, minha manifestação individual do inconsciente coletivo, conquista a si mesmo.

Quantos contratos rompi para celebrar outros maiores, mais humanos!
Que me foram comunicados numa viagem astral e que estão ligados às minhas realizações espirituais.

Neste vestibular da vida madura vejo muita substância e honra, individualidade e completude.
O sentido de limites dissolve-se
entre o amor e a luxúria
entre a submissão e a rendição.

O auto sacrificio surge como preço a pagar pela conciência de si mesmo e do conhecimento oculto.
Fico contente assim.: descobrindo em minha humanidade minha porção divina.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Trio

Entre a explosão
e o equilíbrio,
a serenidade e a 
dor,
resta saber se há um discurso que
nos faça seguir sempre!
(Marice, Tiago Leal e Liliane Rosa).

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Comentário

Sentimentos da doçura do rio e suas areias. Vc parece sereia conhecedora de amores e da falta dele. Vc é uma guerreira e sabe falar do profundo. Parabéns e VIVA! Bj.
 (Paulinho Pedra Azul).

Travessias sem travessuras

Surpreendi-me
com minha verdade
Quantos mantos de sonhos mentirosos
bordei.
 
Que demora
perceber que sonhos são nuvens
passam como a vida. Toda ela uma ilusão.
 
O que fica?
Raios de sol, sopros de ventos
e essa insistente luz celestial
como derradeiro ... sonho.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

JARDIM DE AROMAS PARA CEGOS




Toda a beleza sente-se no ventre,
mesmo a que a janela traz aos olhos
ou os instrumentos de som deixam no ouvido.
Tudo o que a mão palpa, com doçura ou ardor,
tudo o que nos comove ou nos exalta
ata-nos no ventre um nó dentro do corpo.

E nunca depois do Cântico houve o puro amor
que se crave nas entranhas da carne.
Também assim, quando Platão nos disse
que o Bom tão-somente é Belo,
logo soubemos que todo o amor,
como a beleza, era na carne, no ponto axial.

Cheira a alfazema, gardénias, lírios,
neste jardim em que por momentos estaremos,
e os aromas embebem-se no corpo
como se fôssemos cegos amantes que o ventre
impelisse uns para os outros.

Fiama Hasse Pais Brandão
Cenas vivas, Lisboa, Relógio d’Água, 2000 (1ª. ed.), pp. 35-36.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Quando o coração é um sinalizador luminoso

"Segue palpitando
ainda que a noite seja longa
vai, continua pulsando
Sim, desse jeito só teu,
que tua boca exale
cálida a cor vermelha
porque somente assim,
terei meu barco na tua direção
e no meio do breu da noite
saberei, de olho fechado
ancorar meu ímpeto em teu cais.

Amo quando gritas
porque sei que estás criando
e do teu grito
nascerá um duplo coração
palpitando...palpitando."

domingo, 5 de junho de 2011

Um anjo tímido em sua terra natal

Muito além dos limites do ego
algo esteve guardado pra mim no rio debaixo do rio.
Esta descida psicológica levou-me a minha terra natal.

Viverei, daqui pra frente
perdoando, esquecendo, criando.

sábado, 4 de junho de 2011

O parto

O inconsciente envelhecido está diante daquilo que anseei e que jamais poderá ser concretizado.
É o diabo na água, no meio do redemoinho, atraído pelo meu jeito de navegar.
 
Passei por ele em missões terríveis, quase me afoguei. 
Que nada!  
O diabo trocou a mensagem de amor e de alegria entre alma e espírito, cortando meu coração. 
Distorci percepções em vez de desenvolver precisão automática e ação.
 
Hora de por a prova uma nova postura adquirida
Meu animus reduz nossa proximidade para que eu me prepare,
sem apoio, para o período de prova..
Sem alimento, sem pão, preciso nutrir-me somente da memória de tudo aquilo que representaste.
Sua contribuição poética para minha análise será mantida.. por amor.
 
Ja na reta de despontar na superfície do rio
em pleno teste da minha certeza interior
não vou ceder .
 
Dou a luz a uma nova visão da vida.
Oh! metade masculina de mim! Proteja os insensatos.
Amarre-me a mim mesma e
intensifique-me pra que eu possa me nutrir do meu próprio seio.
 
Agora
Envolva-me em véus
pra que todos se afastem, pra que ninguém me toque.
Preserve-me no amor e no mistério.
Não deixe que eu despeje o melhor de mim mesma em ninguém, nem em nada.
Preciso estar nutrida já que devo me despedir de tua valiosa compreensão.
 
Nasci de novo. Mas ainda não me tornei.
Eu mesma estou  a caminho..
Originalidade, unidade, identidade, integridade estão crescendo para depois nascer.
Felizes para sempre tem medida certa para cada um. 

Grávida


Retorno às minhas idéias mais profundas
que sempre estiveram à minha espera no meu jardim perpétuo.

Meu reino é um campo verdejante
Tremeluzindo identidades, integridades.
Meu canto, meu conto, meu pão.


domingo, 29 de maio de 2011

A lady e o rito da resistência

Estou no mundo oculto
iniciando meu primeiro estágio alquímico
Estrategicamente posicionada abaixo da raiz de uma macieira florida.

Ninguém tem permissão para permanecer inocente.
A vida sem dentes, sem garras, sem faro, sem conhecimento sobre as questões da alma, dormindo, amando, trabalhando, foi uma armadilha.

Mas a bondade, a curiosidade e a mania de provocar incêndios
foi maior.
A filha de Eva se lançou ao rio debaixo do rio
Põe-se a descascar as camadas da própria percepção
para enxergar o que não poderia ser visto à primeira vista.

Quanta matéria prima! Tudo o que aprendi, que ouvi, que desejei, que senti.
Decomponho tudo para fazer melhor uso.
O impulso criativo colocou em funcionamento o velho moinho
O barulho do mundo não existe mais
apenas o triturar dos grãos de conhecimento do mundo real e do mundo oculto.

Na metamorfose, a luz.
Uma vida de amor, de criatividade, de consciência.

Algumas estações se passaram até que se amadurecesse o conhecimento sobre os hábitos de minh'alma. Maduro, posso me nutrir com ele.
Algumas estações se passaram até que as raízes encontrassem chão. Pai-xão.

Minha macieira florida!
Curandero densamente sensual e amadurecido das idéias.
Despertaste meu inconsciente profundo para o que deveria ser o produto do meu trabalho. Elaborei .

De olhos abertos
e empreendendo a tarefa de fornecer luz e calor a mim mesma,
um fogo vigoroso com instintos astutos ganha vida.

Compreendo meu valor.
E meu ideal objetivo e coletivo de florir sempre.

sábado, 28 de maio de 2011

Jardim nas cicatrizes

Houve o tempo
de me sentir debilitada
sem consolo
sem cura
Algumas historias me raptaram de mim.

É inacreditável!
Fui capaz de nadar rio abaixo
e cá estou até agora.
Objetivamente conhecendo o entre mundos e os seres de névoa.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Retornar

Hora de voltar à superfície
transformada
não sem antes encontrá-lo
o profundo.
que me chocou com a visão de mim
deu-me nadadeiras nos pés
enfeitou-me os cabelos com ramos de
trigo verde
retirou-me as escamas
e pendurou-me nos braços uma bolsinha tipo "canguru"
última moda aqui no rio debaixo do rio.

Combinamos de nos encontrar lá em cima
no reino das águas claras.
na estação do sólo fértil.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O encontro

Estou na morada de minh'alma
é morno
sou aquática
habito uma oca
no rio abaixo do rio.
 
Meus pés se apoiam numa grama verde-água recém -nascida
meu lar é crepuscular
com flores miúdas multicoloridas
e gotas cristalizadas suspensas no ar.
 
"Aquela que sabe" surge caminhando em minha direção
Imensa no ser
Que queres? se tudo que viveste até aqui foi escolha tua
para viveres com plenitude a outra parte.
 
Cansada? guerreira!
Em vez de se encher de vazio, toma aqui ... amor.
Se é o que precisas para retornar.

domingo, 1 de maio de 2011

Ninho

Ando acomodando sombras.
Pretendo muito em breve mergulhar no mais profundo do amor e do sentimento
por minha natureza instintiva.

Quando retornar,
meu estado de espírito será pura expressão de minha alma.

Daí então, a voz da minha alma irá sussurrar 
a verdade do meu poder
e da minha necessidade
.

sábado, 30 de abril de 2011

Oferenda

Ao propor teu tesouro por um segundo de minha luz
Estás trocando seis por meia duzia
porque na minha procura pela porta
Foste minha passagem secreta
E protegeste a vida de minha alma.
Se saí do limiar do fim do mundo
se criei meu próprio ritual de absolvição
se já não me sinto um feijão preto num balde de ervilhas
É porque respondi à necessidade de coerência
com uma dança criativa e atemorizante ao redor de um saco de sementes.
Fizeste para sempre
em mim
muito mais do que sobreviver
Me deste fidelidade. Serei sempre encontrada dentro dos meus olhos.
Lá estarei em árvores, em águas, em palavras, em cor, em barro, em dança.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Viagem

Estou no meio do rio
poderia nadar a mesma distância em qualquer direção.
Uma flor vermelha irrompe na superfície da água imitando uma vitória régia
renova meu fôlego e minhas verdades.

A travessia chega ao seu ponto crítico.
Em vez de ir adiante é preciso ir abaixo, dentro.
A força da correnteza faz ventania na minha consciência
e o sol forte deixa diáfana a água.

A força da correnteza abre a porta   do entre mundos
Entro
Enfim
o que estava oculto pode ser compreendido emocionalmente.
Ah! Mar.. deste paisagem demais ao teu predador natural.

Naveguei bem na travessia da realidade para o entre mundos.
Aqui
no rio abaixo do rio
a correnteza tem seu próprio ritmo
Estamos sós.

sábado, 23 de abril de 2011

Recolhendo ossos

Aos quarenta
não dá mais pra contemplar o próprio rabo.
Até hoje escondi meus instintos num intelecto devorador.

Agora medito, canto, danço e escrevo poemas.
Descobri meu acesso ao mundo entre mundos.
Percebo essências e seres de névoa.

Estou no deserto.
Meu fôlego e minhas verdades constroem o lar da minha alma.

O rio debaixo do rio é  minha âncora. Todos os meus sonhos me espreitam na superfície.

Preciso permitir a morte para viver à ceu aberto.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Desabotoamente

Desabotoar a arma-dura é um ato de bondade com a alma do mundo
Então desata-me os laços do cativeiro
E ata-me à esta tua língua-raíz que trazes na ponta dos dedos
Prometo-te o imenso ritmo da dança nua.


Estou tornando-me cativa de minha própria mente.

sábado, 2 de abril de 2011

Cativeiro

Se estás comigo ou em mim, tanto faz
Sem o cativeiro não existimos.

Agora não salto mais, não estouro cativeiros sem idéia do que encontrar pela frente.
Tornou-se um merguho profundo
até o macio interno de mim.
Lá onde tudo é compreensível.

Até ontem fui uma mulher de combates e armaduras
Hoje tudo me sugere alegria, amor e delicadeza.
Meu presente é: desabotoar as vestes  da armadura
nadar rio adentro
No reverso
No minimo sete senhoras esperam para habitar-me
E escravizar-me.

domingo, 27 de março de 2011

ELE

Esse teu olhar de " nem ser"
persegue-me noite e dia
Marice: não há nada de novo sob o sol.
Ainda assim, cada vez que um amanhecer explode em minha alma
Marice: há tanto por achar


eu estouro um cativeiro.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Um rio debaixo d'água

um rio debaixo d’água?

Dadi! Ai que saudade d'ocê!

Pra falar de DADI é preciso antes ajoelhar-me em algodão e abraçar as lembranças da meninice: Dadi, Ery, Rosa, Loi, Gilbert, Neguinha, Key, Edu, Nadja. Amigos que afastavam a caretice com as armas do amor.
Dadi é irmão de aconchego. Parte grande de mim, parte sempre-viva de nós. Poesia de causas (sobretudo eco-lógicas), de causos e idéias.
Filho da tradição, irmão da cultura popular e de mulheres lindas, tio de mulheres igualmente lindas - talvez por conviver com tantas mulheres Dadi tenha aprendido a sorver a alma feminina feito uma bala doce - daí o resultado: pai de uma Flor. Felizes os irmãos e os sobrinhos que herdaram uma fatia dessa personalidade.
E o som mora nele. No corpo e na alma dele. Todas as vozes encontram abrigo em alguém que se nega a ver o mundo estreito demais. Dadi é Zen!
Vai tocar aonde Dadi? no Juá, na praia, na ponte, na roça, no bar de Gatão, no Boitempo, na porta da casa de alguém?! Não importa. Quer companhia? ESTAMOS AQUI!
(Marice em 22 de janeiro de 2006).

AURORA BOREAL

O que é a fé?

A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera,
é um meio de conhecer realidades que não se vêem.
(Hebreus, 11).

Forte coisa!

Aqui fora nada é mais forte que tua alma!

Travessura

Meus olhos acompanham meu riso...
Mas eu não vejo com os olhos.

Na floresta

"Na floresta só existe lembrança dos amorosos 
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram, seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos 
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar 
Dá-me a flauta e canta! 
E esquece a injustiça do opressor 
Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue."

(Trecho do poema árabe " Na Floresta", de Gibran Khalil Gibran)

Partida do Vô

Lembra-te de mim
como amigo
como pai, avô, bisavô.

Lembra-te de mim
ladeado por duas bandeiras hasteadas
a honradez e a simplicidade

Lembra-te de mim
como cidadão

Lembra-te de mim
como médico " de homens e de almas"

Lembra-te de mim
como um contador de histórias

Lembra-te de mim
nos frutos do amor ao trabalho

Lembra-te de mim
no cuidado dos seus

Lembra-te de mim
em atitudes de solidariedade.

Assim serei eterno.
(Dom Joaquim-MG, 30 de janeiro de 2011)

Sintonia

Como sabes que meu sono é indolente?
que me despeço do corpo antes de dormir
com o coração de um vagalume?

Que pode ser que eu acorde na madrugada
implorando uma âncora imaginária pra unir ímpeto e cais?

Depois volto a dormir atravessada
por um certo medo criança
que teima em colocar-me em penitente vigília.

Duro

O poema serve a teu diálogo
com o cosmos
Que de propósito, sacia de amor
minha alma com teu poema
Restituindo na fonte
Aquilo que vai nos bolsos da tua
Para não esvair em ti
o sabor da vida.
Em lugar de espremer na
sensaboria do dia a dia
Experimenta morder
impiedosamente
A vida como se fosse uma bela fruta.

Pra mim

Há frutos nesta árvore que levam o meu nome?
Então não os perceba caídos noutro solo que não seja meu planeta.

Resgate

Ai Mulher!
Vou bombardeá-la até
que me devolvas
a menina que brincava
moldando bonequinhos de argila.