quinta-feira, 16 de junho de 2011

JARDIM DE AROMAS PARA CEGOS




Toda a beleza sente-se no ventre,
mesmo a que a janela traz aos olhos
ou os instrumentos de som deixam no ouvido.
Tudo o que a mão palpa, com doçura ou ardor,
tudo o que nos comove ou nos exalta
ata-nos no ventre um nó dentro do corpo.

E nunca depois do Cântico houve o puro amor
que se crave nas entranhas da carne.
Também assim, quando Platão nos disse
que o Bom tão-somente é Belo,
logo soubemos que todo o amor,
como a beleza, era na carne, no ponto axial.

Cheira a alfazema, gardénias, lírios,
neste jardim em que por momentos estaremos,
e os aromas embebem-se no corpo
como se fôssemos cegos amantes que o ventre
impelisse uns para os outros.

Fiama Hasse Pais Brandão
Cenas vivas, Lisboa, Relógio d’Água, 2000 (1ª. ed.), pp. 35-36.

Um comentário:

  1. ‎"Jardim de aromas para cegos", uma excelente notícia que Fiama soube ler tão bem. Que bela notícia: a notícia de que há quem leia bem as belas notícias. Um apelo à abstracção de tudo quanto parece bom até ficar a carne só. O ventre. Ponto ...axial de todo o poema. Ali, e aqui, o cântico é no ventre, o táctil é no ventre, tudo é no ventre. E o ventre é também o ponto axial que nos impele “uns para os outros”. É onde nascemos e por onde nos comunicamos à vida uns dos outros. É onde somos e vemos. Quase como se a cabeça com olhos, narinas, língua, lábios, faces e ouvidos, não fosse mais que a porta de um jardim.
    Hoje ainda lá está, na Ajuda, o Jardim de Aromas, aberto a ser visitado por quem anda à procura de ver melhor o mundo.
    (FILIPE NORONHA)

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